Um embate acadêmico que passará para a história

Em disputa acirrada, três grandes docentes pleitearam a titularidade na área de CCP

 

13 de maio de 2019 – por Marcos Brasilino de Carvalho – oncologista, cirurgião de cabeça e pescoço

 

Em 22/04, o teatro da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) foi palco do Concurso para Professor Titular junto ao Departamento de Cirurgia – disciplina de Cirurgia de Cabeça e Pescoço. Concorreram os professores Claudio Roberto Cernea, Fábio Luiz de Menezes e Luiz Paulo Kowalski. Ao final, após provas públicas de erudição, de arguição e de julgamento de títulos, o Prof. Luiz Paulo Kowalski, do A. C. Camargo Center, somou a maior média na avaliação da maioria dos examinadores.

O espaçoso teatro se tornou pequeno para o surpreendente número de pessoas vindas de todas as partes do Brasil. Elas homenageavam os professores com reverente silêncio no transcorrer das apresentações que eram encerradas com a plateia em pé, explodindo em merecidos e demorados aplausos.

A importância daquele momento histórico era percebida no ar pela emoção que eletrizava o ambiente vigiado pela responsabilidade da exigência de uma boa escolha. Aristóteles (384-322 a.C.), ao estudar a racionalidade das emoções, preocupava-se em como o homem pode conciliar as coisas certas, nos momentos convenientes, com a sua capacidade de sentir as emoções, em direção a o quê e a quem é adequado; e sintetizou em uma única frase: os sentimentos residem no coração e o cérebro tem a missão de esfriar o coração e os sentimentos neles localizados*.

Todos os presentes já conheciam os candidatos por suas ligações de amizade, mas principalmente, por suas produções científicas, pela inteligência, pela erudição médica, pelo conhecimento que acumularam e que, vocacionados para ensinar, há anos compartilham com seus colegas e alunos. Mas quem pôde assistir este concurso, foi testemunha de um embate que passará para a História. A postura singular, caracterizada pela segurança de quem tem profundo domínio da especialidade e consciência da transitoriedade do que acreditamos como verdadeiro, brindou os presentes com uma exibição onde todos os concorrentes se tornaram favoritos. Modelos exemplares a serem seguidos pela nobreza e dignidade com que defenderam suas indicações.

A especialidade de cirurgia de cabeça e pescoço, como ciência e como arte, vem passando por contínuas mudanças. Abrange áreas de anatomia complexa, envolve setores funcionalmente essenciais para a vida e é sede de uma infindável lista de doenças. Disto vem o seu fascínio. É uma área da medicina para quem se realiza com os desafios de situações aparentemente insolúveis; para quem gosta de gente para poder aglutinar ideias de outras especialidades, de outros profissionais, dos pacientes e de seus familiares, a fim de chegar à melhor decisão, não monocrática, mas fruto de uma honesta e séria troca interpessoal de opiniões. Vimos claramente pelas palavras dos professores que a especialidade na antiguidade era presente já na arte e hoje lança suas raízes para a biologia molecular, para a física e até para a filosofia.

Ao final, que é um começo, um venceu, mas quem ganhou foi a Medicina brasileira, representada pela especialidade de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, e a Universidade de São Paulo, que proporcionou uma disputa que honrou sua história, que encheria de orgulho o Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho, cirurgião e primeiro diretor daquela Faculdade de Medicina.

* https://repositorio.ufsc.br/handle/123456789/183420