O DNA define uma escolha ou uma escolha vem de um DNA?

O que fazer quando se tem duas paixões? Nesta edição, o lado A e o lado B de um profissional.

São Paulo, 18/10/2019 – por Mariana Veltri, jornalista da SBCCP

Já ouvimos os clássicos: “O que veio antes: o ovo ou a galinha?” E uma marca de biscoitos também colocava em evidência: “T… é mais fresquinho porque vende mais, ou vende mais porque é mais fresquinho?”.  Nessa matéria foi inevitável a pergunta: “O que veio antes: a Medicina ou a Música?”. O personagem dessa reportagem é o Dr. Alexandre Bezerra, médico-cirurgião de cabeça e pescoço do Icesp (Instituto do Câncer do Estado de São Paulo) e do Hospital Santa Paula, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP) e para muitos uma revelação: pianista de orquestra sinfônica, que tocou até na Orquestra Filarmônica de Santo Amaro, conhecida como Ofisa.

Dr. Alexandre Bezerra tem em seu DNA a música e a medicina. Cresceu ouvindo a avó tocar, a mãe, as três irmãs, o pai ouvia muito música clássica e como não podia deixar de ser… “Quando todo mundo parou de tocar, eu já tinha 14 anos, comecei a tocar e não parei nunca mais. Foi uma paixão imediata. Comecei relativamente tarde, minhas irmãs começaram com 6 anos, mas eu fui só com 14 e minha irmã caçula foi minha primeira professora”, conta. Depois ingressou no Conservatório Musical.

Na fase de escolhas de caminho, veio o dilema: o que seguir? Encantado por Biologia e os animais desde pequeno, depois fascinado pelo corpo humano e pela Fisiologia, já sabia que seu caminho era por essa área – junto com a música que o acompanhava sempre como pano de fundo – e não pela Engenharia, como seu pai.

“Só demorei um pouco pra ter coragem de falar pro meu pai. Ele engenheiro, tinha essa figura do pai. Na época do colégio, vestibular, eu até me questionava – eu já tocava fazia uns 4 anos, estudava música, ficava horas no Conservatório, aí fiquei me questionando se eu ia pro lado da Música ou da Medicina. Às vezes as pessoas falam: ah, minha paixão era uma coisa, mas fiz outra porque não era aquilo. Não, eu gostava dos dois”, declara.

O que pesou foi quando fez um panorama entre viver de música erudita no Brasil e a vida de um médico. Foi então que deu vazão ao seu coração e seguiu pela Medicina, mesma profissão da irmã mais velha. E como não podia deixar de fugir do DNA, já na faculdade de Medicina descobriu que o avô, veterinário, sonhava em ser médico!

Como músico, chegou a participar de alguns projetos grandes, a tocar numa montagem de ópera, já fez 3 concertos com orquestras. “Nunca trabalhei como músico de forma profissional, mas de uma forma que eu chamo de ‘amadora avançada’”, define.

Ele não usa a música na medicina, mas por outro lado, a música está sempre presente. “É muito comum nos centros cirúrgicos você colocar alguma música. A minha grande paixão é a música erudita, mas esse tipo de música você não vai colocar quando está operando, por alguns motivos: não é todo mundo que gosta. Outro, é que a música erudita tem hora que explode, às vezes está muito alto, outra hora mais baixinho. Numa cirurgia eu coloco um rock normal, posso ouvir um jazz de fundo, que está ótimo”, fala animado.

Entre uma paixão e outra, tem um elo que une as duas coisas: a mão, a habilidade do médico e de um músico com as mãos são imprescindíveis. “A cirurgia é assim: deixa eu olhar. Você vai lá e olha com a mão. Você opera, sente a textura, a consistência, é tudo com a mão. E com a música também, é a mão”, relata o médico acrescentado que além do piano, também já tocou violino e violoncelo.

Mas dessa caixinha não para de sair surpresas. Já no final da conversa, perguntado se já compôs, Dr. Alexandre revela: “Ainda não componho, mas estudo harmonia, contraponto, composição, porque é algo que faz parte da programação (musical). Mas eu sempre gostei de escrever e há um tempo comecei a escrever um livro, depois parei, retomei de novo”, continua.

O projeto, que já tem 300 páginas e une as duas paixões, é discorrido pelo ponto de vista de um médico, diferente de um livro escrito por um musicólogo, por exemplo. “É um livro com as biografias de compositores de música clássica, mas com enfoque para as doenças que eles tiveram, então isso mexe não só com a biografia mas também com a história da medicina, porque o tratamento das doenças, anos atrás eram diferentes, e como músico amador, quero discorrer sobre a influência disso nas composições”, reforça.

Entre idas e vindas desse projeto, Dr. Alexandre sente que agora é se preparar para o lançamento desse “filho” e por que não aproveitar e já fazer um recital? Preparem-se, em breve novidades por aí!!