O catador de caranguejos se transformou no catador de câncer

Semente de Mostarda, projeto de medicina humanizada, nasceu de uma parábola bíblica e vem salvando vidas de pacientes atendidos pelo SUS.

São Paulo, 10/12/2019 – por Mariana Veltri, jornalista da SBCCP

“Como são os desígnios da vida…” reflete Dr. Klecius Leite Fernandes, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço (SBCCP), personagem dessa reportagem, e coordenador do projeto “Semente de Mostarda – Oncologia de Qualidade com Humanidade”, instalado no Hospital São Vicente de Paulo, na Paraíba (PB), que também gerou um livro de mesmo nome. E é assim que inicia esse texto com a filosófica reflexão aristotélica: a vida imita a arte ou arte imita a vida?

Amor, valor e espiritualidade cruzam os caminhos a partir de um grãozinho plantado, um projeto de uma vida começou anos antes. O menino que cresceu em fazenda, caçando caranguejos ao lado do pai, virou um médico-cirurgião de cabeça e pescoço. O signo do câncer simboliza o caranguejo, e hoje ele trata do câncer de pacientes. Com uma sementezinha que carrega desde cedo, uma viagem lhe inspirou o projeto.

A partir de um mergulho bíblico em Israel, Dr. Klecius se deparou com a parábola da Semente de Mostarda: a menor de todas as sementes, plantada em terreno fértil vira uma grande árvore e abriga as aves do céu. Fazendo um paralelo com a vida real, os pacientes seriam as aves e o projeto, a semente que cresceu e se transformou numa árvore para dar carinho e acolhimento aos pacientes oncológicos tratados pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

O “Semente de Mostarda”, desde sua implantação em cumprimento à Lei nº 12.732, de 22 de novembro de 2012, tem tido resultados positivos. O projeto trabalha estratégias de ação para políticas públicas no governo, mobilizando também a iniciativa privada e sociedade civil organizada, com o objetivo de obter recursos e equipamentos.

“Esse projeto transformou um hospital geral, para atender casos de média e alta complexidades de Oncologia pelo SUS. Consegue fazer mais de 500 quimioterapias/mês, e cerca de 6 a 8 mil cirurgias oncológicas ao ano”, informa o coordenador.

O projeto também trata de crianças com deficiências mentais ou físicas. “Aliás, não é Deficiência e sim D’Eficiência, eficiência de Deus. São seres de Luz, os quais devemos respeitar e tratar pelo que temos de mais valor: o nosso corpo”, comenta Dr. Klecius.

O sucesso “Semente de Mostarda” vai além da técnica científica e atendimento. Vem do amor com que é conduzido. Muito mais que tratar os pacientes, ele acolhe também os familiares. Pela sabedoria e percepção da dor e sofrimento, o médico trata as pessoas entendendo a brevidade da vida, a partir do valor de cada um.

“A tecnologia, de certa forma, distanciou os médicos de seus pacientes. A relação desse paciente está fragilizada, por essa frieza. Hoje em dia uma máquina trata as pessoas. A gente precisa resgatar dentro de nós o doutor de branco, aquele médico da família, aquela pessoa a quem se confessava os problemas mais íntimos, por ter no médico uma extrema confiança, um conselheiro fiel. A gente precisa dar continuidade. Você é convidado a fazer o bem e isso tem um grande impacto na vida dessas pessoas. Quem está com um câncer, a maior parte sabe, são breves viajantes no tempo e que, logo logo, estarão em outro plano”, comenta Dr. Fernandes.

A partir dessas experiências calcadas pela dor e sofrimento, nasceu o livro publicado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM). “São 180 crônicas que falam não só sobre os pacientes em si, sobre suas doenças, mas sobre a parte espiritual. São pessoas fragilizadas, sofridas. Procurei expressar nas folhas, traduzir em palavras, muitas vezes palavras simples, mas que fossem escritas em experiência de muita emoção. Essas crônicas tratam justamente de esperança, fé, sobretudo de humanidade”, diz.

Dr. Klecius, que também é professor da Universidade Federal da Paraíba, professor de Oncologia da Faculdade de Ciências Médicas em João Pessoa, fala que um dos grandes erros em Medicina é professor fazer o aluno procurar ser o número 1. Precisamos ensinar o aluno a lidar também com perdas. O médico, antes de ser um número, um paradigma, tem que ser franco, ser Humano com ‘h’ maiúsculo. O número 1 é importante, mas muitas vezes é muito frio. Mais importante que o 1 é o número 2, que tem o número 1 ao seu lado ou o número 3 ou o 4. O número 1 é isolado, eu gosto do plural, todos nós temos um valor dentro da gente”, enfatiza.

O professor explica que a ciência é importante, mas o que move o valor? Quais são os valores de cada um? “O medo de perder o filho diante de um leão, faz uma mãe criar coragem e lutar com esse animal”, exemplifica com essa metáfora. O quanto é importante um doente que está fazendo a passagem, estar em casa rodeado do amor de seus familiares.

“O médico tem que cultivar a coragem da gente e a gente tem que cultivar sobretudo nele o medo de perder seus pacientes. A gente tem que ter a coragem também de parar. A gente não tem que acrescentar anos a uma vida, a gente tem que acrescentar vida a todo instante”, pontua. “Afinal de contas, é melhor o paciente terminal, com um câncer incurável, fazer uma passagem abraçado com os familiares queridos em sua casa, num cômodo aquecido pelo amor, que numa sala fria e barulhenta de uma UTI, agarrado com um ventilador mecânico, uma máquina sem sentimentos!”, continua Dr. Klecius.

E é pelo olhar o outro, que um curativo na alma é aquecido pelo amor, como desenrola em “A Toalha”, uma das crônicas do livro:

“Aqui, nessa pequena sala de cirurgia, eu penso em Deus todos os segundos!… Todos os dias, eu vejo Jesus entrando numa maca flagelado pelo câncer! Todos os dias, eu tento limpar suas feridas…com uma toalha!…

(…) Eu sou um homem indigno, senhor…pois quero dormir, quando pedes que ores por ti…

(…) Mesmo você se sentindo indigno, meu filho, sempre haverá uma parte de mim a ser cuidado…Não quero que você carregue nunca minha cruz, pois ela é só minha, mas carregue sempre essa toalha de sentimentos…pois Ela é só sua…

(…) Eu peguei a toalha e, dessa vez, enxuguei envergonhado minhas próprias lagrimas…sentei no banquinho e fiquei a pensar em Deus mais uma vez… e a imaginar em que rosto Jesus iria entrar nessa sala mais uma vez!

(…) Esse ato invisível de amor estará para sempre visível em meu coração!”

“Texto escrito com uma toalha de sentimentos, de um lado sangue, do outro, lágrimas! De um lado, um rosto marcado pelo sofrimento, do outro lado, um rosto materno sofrendo a perda de um filho…Um rosto banhado de lágrimas… O que escrevemos é capaz de agitar as moléculas e transformar o mundo em nossa volta”, profetiza o médico.

Os exemplares estão esgotados, mas em breve, deve ser lançado por uma editora carioca e disponibilizado na plataforma da Amazon. Que venham mais frutos para essa bonita missão…