EU SOBREVIVI AO COVID-19

“Morrer. Dormir. Dormir. Talvez sonhar.” William Shakespeare em Hamlet. Ato 3, cena 1.

por Chin Shien Lin

O dia 22 de março parecia como um domingo qualquer. Precisava sair para um treino de corrida mais demorado, mais conhecido como “longão” entre os corredores de rua.

No entanto, havia alguns detalhes diferentes: a pandemia do coronavírus havia finalmente chegado ao Brasil, com o paciente zero diagnosticado em 25 de fevereiro em São Paulo (1). Dois dias antes, o governador e o prefeito de São Paulo haviam decretado o fechamento dos parques e dos comércios não essenciais com o objetivo de quarentena social e diminuir a aglomeração popular e dificultar a disseminação (2, 3). Tinha recebido a orientação da minha treinadora para evitar atividades físicas mais extenuantes, o desgaste desnecessário e, por conseguinte, poderia deixar-me mais vulnerável em um eventual contágio.

Havia começado no final da tarde de sábado uma sensação de corpo estranho na faringe…

O esforço da corrida, mesmo com a redução recomendada, deixou-me um pouco mais fatigado e letárgico durante o resto do dia. Presumi que fosse o desgaste da semana anterior. Tomei uma Novalgina efervescente e repousei.

Na manhã do dia seguinte, fui auxiliar um colega numa operação de esvaziamento cervical lateral. Minutos antes da retirada da peça, uma onda de mal-estar tomou conta de mim, uma estranha impressão de perda iminente de consciência. Tentei suportar por algum tempo, até que finalmente pedi para sair. Tive sudorese. No conforto médico, ingeri líquidos, seguiram-se uma onda de cólicas e o quadro diarreico. Pensei comigo “Pronto! Foi o reflexo vagal precedendo a uma GECA”.

Segui para o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (ICESP) à tarde, e coloquei-me à disposição da equipe do Centro Cirúrgico para auxiliar os residentes nas operações agendadas, felizmente não precisei entrar em campo. Como o mal-estar não voltou mais, tomei até a vacina para H1N1.

Durante a noite, o desconforto na faringe progrediu rapidamente para uma dor de forte intensidade. Uma dor que nunca experimentara antes; a cada deglutição sentia o atrito entre todas as estruturas da oro e hipofaringe. Concomitantemente, houve congestão facial e tosses irritativas.

Na terça, procurei o Centro de Acolhimento ao Colaborador (CeAC) do complexo Hospital das Clínicas (HC), onde passei por uma triagem e fui atendido por um colega que, de tão jovem, nem se lembrava da crise de saúde causada por H1N1 em 2009. Mesmo considerando que o meu quadro não era dos mais típicos para Covid-19, e que os sinais vitais estavam todos muito bons. No entanto, devido a minha atividade assistencial focada em pacientes oncológicos, e pelo meu antecedente de asma (leve, havia passado mais de seis anos sem ter uma crise), fui classificado como grupo de risco. Procederam com a coleta de swab da nasofaringe (acreditem, não é uma experiência agradável) e orofaringe, e prescrito oseltamivir. Também fui afastado das minhas atividades até o resultado ficar pronto.

A quarta continuou com a dor na faringe, a astenia e a mialgia pioraram levemente. Cerca de 24 horas depois da coleta do exame, fui avisado por uma chamada no meu celular sobre o resultado: positivo para Covid-19. Passei a entender a evolução muito atípica desta infecção respiratória, o mal-estar, a sudorese eram a viremia do corona!

De imediato, mandei mensagem no grupo dos assistentes do ICESP avisando a todos, alertando principalmente aqueles que tiveram contato comigo dois dias antes.

Passou brevemente pela minha cabeça uma aula durante a graduação, na qual relataram o acidente com o vírus da varíola, doença erradicada oficialmente em 1972, envolvendo um laboratório de virologia em Birmingham, na Inglaterra em 1978 (4). E como as autoridades de saúde pública conseguiram mapear, isolar e monitorar as pessoas que tiveram o contato com o funcionário que se acidentara com o vírus. Mandei mensagem para todas as pessoas com quem tive contato e que eu ainda me lembrava, desde dois dias antes do início dos sintomas. Logo pesou-me na consciência o risco de ter contaminado alguém de forma inconsciente durante a fase oligossintomática.

A dor na faringe me acompanhou até o sexto dia após o início dos sintomas. A mialgia, a prostração e uma sensação de ressaca interminável ganharam forças a partir da quinta-feira. Ficava o dia todo com tonturas, enjoo, gosto ruim na boca, cefaleia tipo peso, dificuldade em concentração. O pior era que não tinha passado a noite em baladas. O tempo não importava para mim, procurava sempre ficar deitado, era a posição que me sentia menos desconfortável, e dormir, dormir.

Assim que o quadro faríngeo deu uma trégua, tive durante a sexta e o sábado, inapetência, gastroparesia e intolerância com vômitos e diarreia (poucos episódios). Não conseguia ingerir sequer sucos nem frutas. A partir do décimo dia, comecei a ter broncoespasmo leve, a ponto de precisar de Aerolin spray. Para ficar mais confortável, passei a dormir com três travesseiros. Confesso que com o risco de agravamento dos sintomas respiratórios, usei diversas vezes a calculadora da mortalidade do Covid (5). Tinha também decidido em pedir ajuda a três colegas da especialidade que atualmente ocupam cargos administrativos em dois hospitais privados próximos de casa, na eventualidade de ocorrer a insuficiência respiratória.

O quadro de tonturas, náuseas e cefaleia me acompanharam até dois dias antes do término do meu isolamento. Enquanto o broncoespasmo atenuou somente 6 dias após o término do isolamento. Dos sintomas mais comuns do Covid-19, acho que somente não apresentei anosmia (6).

Comemorei o fim do isolamento saindo para comprar e comer junk food. E no domingo dia 05 de abril, voltei a correr. Confesso que foi bem sofrido; a frequência cardíaca disparou, as pernas não aguentaram tantos esforços e doeram dos quadris aos tornozelos e pés, a rodagem foi muito abaixo das minhas expectativas. Mas eu não sibilei! Voltar a sentir o sol e o vento na cara foi ótimo. Conseguir apreciar as árvores frutíferas durante o percurso, como abacate, goiaba, amora, nêspera e manga foi melhor ainda! Eu pude reconhecer muitos rostos daquelas pessoas que têm o costume de correr no Parque Ibirapuera (antes do fechamento), e que agora como eu, correm no seu entorno. Inclusive várias delas eu havia encontrado no meu D1 de sintomas, sabendo que estavam todos bem, isso não tem preço.

Durante o isolamento, encontrei dificuldades em proteger a minha família do contágio, mesmo tomando todos os cuidados recomendados. Podemos imaginar quão mais difícil ainda será para as famílias menos favorecidas. Sou muito grato porque se foram infectados (presumidamente, sim) apresentaram formas muito menos agressivas do que a minha (7). Pude contar com a ajuda e o estímulo dos amigos e familiares, através de telefonemas, mensagens no whatsapp e videochamadas. A esperança e a fé também me fortaleceram muito no período de incertezas. Quero agradecer publicamente aos meus colegas do HC-ICESP com suas mensagens de apoio e solidariedade.

Através da imprensa, dos whatsapp groups e e-mails, somos inundados diariamente sobre notícias de pessoas jovens, sem comorbidades aparentes, e de colegas da área da saúde que tiveram morte como desfecho. Apesar de enfrentarmos um inimigo cuja interação com o hospedeiro ainda é muito pouco conhecida. Temos todas as ferramentas para vencer esta batalha. Sabemos atualmente apenas os tratamentos de suporte, na esfera de controle de danos. Esforços do mundo inteiro estão sendo unidos para encontrar o tratamento padronizado e respaldado na ciência contra a infecção em curso, assim como a criação de vacinas. O que nos resta pouca alternativa no presente momento que não adotar uma tática de guerrilha com o mínimo contato/confrontamento possível. Façamos a nossa parte.

Cheers!

Referências:

  1. https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-02-26/brasil-identifica-caso-positivo-de-coronavirus-mas-aguarda-contraprova.html
  2. https://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2020/03/21/governo-de-sao-paulo-decreta-quarentena-de-15-dias-em-todo-o-estado-por-causa-do-coronavirus.ghtml
  3. https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/03/20/prefeitura-de-sp-determina-fechamento-dos-parques-municipais-por-conta-do-coronavirus.ghtml
  4. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-42302002000400045
  5. https://covid19calc.org/
  6. http://www.cdc.gov/coronavirus/2019-ncov/index.html
  7. I Tess 5:18