Encontro levanta novas reflexões para o tratamento do câncer de tireoide

 

Dados estatísticos surpreendem quanto a indicação de Radioiodoterapia após tireoidectomia nos EUA..

por Dra. Renata Farias Souto Simonsen – FMABC

 

O encontro anual da Sociedade Americana de Tireoide (89th Annual Meeting of American Thyroid Association) aconteceu em Chicago (EUA), entre os dias 30/10 e 3/11, e trouxe novas reflexões no manejo do câncer de tireoide.

A revisão dos Guidelines da ATA para a próxima edição já está em curso, mas algumas dicas do que virá foram mostradas nesse encontro. Um ponto interessante abordado – pacientes atualmente classificados como LOW RISK, que podem não ser baixo risco, levando em consideração aqueles que apresentem tais características: multifocalidade significante do tumor, margens positivas posteriormente, TERT ou outras mutações preocupantes e tireoglobulina elevada no pós-operatório.

Muito debatido e já realidade em alguns serviços oncológicos de ponta, a vigilância ativa para o microcarcinoma papilífero de tireoide. Parece, enfim, ter seus candidatos ideais, levando em consideração três bases fundamentais – as características do tumor e ultrassonográficas dos nódulos, as características do paciente e da equipe médica, sendo:

  1. Dos pacientes: aqueles acima de 60 anos, que aceitem a proposta de vigilância ativa e compreendam que uma intervenção cirúrgica pode ser necessária em algum momento do seguimento e participem assiduamente do plano de tratamento;
  2. Do tumor e USG: nódulo único (carcinoma bem diferenciado de tireoide) com margens bem definidas, não adjacente à cápsula (>2mm de parênquima tireoidiano ao redor), sem evidência de extensão tireoidiana, USG prévio que comprove estabilidade do nódulo, cN0 e cM0;
  3. Da equipe médica: equipe multidisciplinar com experiência no manejo de microcarcinomas papilíferos, USG de alta qualidade, controle de dados clínicos prospectivo e programa apropriado de seguimento.

Ainda descritos também, quais seriam candidatos em potencial e aqueles não candidatos à vigilância ativa. Bem provável que estas recomendações já estejam presentes nos próximos Guidelines.

Um dado que nos surpreendeu negativamente, retirado da National Cancer Data Base, foi que 24% dos 32.119 pacientes submetidos a lobectomia para o tratamento do carcinoma diferenciado de tireoide, nos EUA, receberam iodoterapia após a cirurgia, o que desconsidera completamente a recomendação da ATA, onde a ablação rotineira com iodoterapia, ao invés da totalização cirúrgica, não está recomendada.

A classificação de doença refratária a iodo e a dose máxima em iodoterapia também estão sendo questionadas, tendo em vista a ressensibilização tumoral à iodoterapia após o uso de inibidores da tirosina quinase e estudos com resultados contraditórios sobre resposta a doses acima de 600mCi.

Um tema também explorado foi a relação entre hormônios da tireoide e a fisiopatologia de vários tipos de câncer. Uma grande quantidade de evidências sugere que o hipertireoidismo subclínico e clínico aumenta o risco de várias doenças malignas sólidas, enquanto o hipotireoidismo pode reduzir a agressividade ou atrasar o aparecimento do câncer. Suporte adicional é fornecido em estudos nos quais a desregulação do eixo do hormônio tireoidiano secundário ao tratamento do câncer ou suplementação de hormônio tireoidiano afetou os resultados do câncer.

Ficam as reflexões enquanto aguardamos os novos Guidelines da ATA.