Ceará desenvolve equipamento de proteção com grau maior de eficiência

Equipe de profissionais descobre dispositivos de proteção em barreira

 

Desde dezembro de 2019, uma série de casos de pneumonia foram descritos na cidade de Wuhan, na China, causados por um novo tipo de vírus, o SARS-CoV-2. A doença, posteriormente descrita como COVID-19, desde então vem rapidamente se espalhando pelo mundo, sendo declarada como uma pandemia pela Organização Mundial de Saúde (OMS) em 11/03/2020. O seu principal mecanismo de transmissão se dá por gotículas respiratórias, porém a transmissão por aerossóis foi mais recentemente reconhecida como uma via importante. Dessa forma, muitos procedimentos que podem gerar aerossóis estão associados a alto risco de infecção da equipe de saúde, como ventilação com máscara, intubação orotraqueal e traqueostomias.Os equipamentos de proteção individual (EPIs) vêm se mostrando fundamentais na diminuição da taxa de infecções das equipes de saúde. Ainda assim, o alto custo e a reduzida disponibilidade de alguns desses EPIs vêm tornando crítico o ambiente de trabalho daqueles que atuam diretamente na linha de frente no combate ao COVID-19, principalmente em países em desenvolvimento como o Brasil. Além disso, existe uma limitação nos hospitais públicos de salas cirúrgicas com pressão negativa, item normalmente recomendado nos guidelines mais recentes para traqueostomias em pacientes com COVID-19.

 

Em tempos de pandemia, a maioria das cirurgias eletivas está sendo adiada, visando proteger pacientes e equipe cirúrgica. Ainda assim, alguns procedimentos continuam sendo recomendados, sobretudo as traqueostomias em pacientes com tempo de intubação prolongado. Nesses pacientes, não somente a proteção individual, mas também a proteção coletiva da equipe precisa ser considerada.

 

No Hospital Universitário Walter Cantídio, da Universidade Federal do Ceará (HUWC/UFC), foi determinada uma força tarefa intitulada de “Time de Vias Aéreas Cirúrgicas – COVID-19”, com o intuito de oferecer protocolos para realização de traqueostomias eletivas em pacientes suspeitos ou confirmados com COVID-19, como também para dar suporte às intubações difíceis que vêm sendo realizadas com frequência na nossa instituição. Além da elaboração do nosso protocolo, a equipe desenvolveu, junto com a enfermagem do centro cirúrgico e a equipe de engenharia hospitalar do complexo HUWC/UFC, um protótipo de um dispositivo de barreira para ser utilizado durante a realização de traqueostomias em pacientes infectados.

 

O dispositivo, intitulado de COVID-Box, consta em uma armação de aço inox autoclavável que é colocado sobre o paciente, posteriormente recoberto com um campo plástico descartável de gramatura alta (90g/m2), também esterilizável. O dispositivo forma, portanto, uma caixa transparente estéril, e através de aberturas laterais realizadas pelos próprios cirurgiões, tem-se acesso ao campo cirúrgico. Dessa forma, tanto ergonomia como segurança são preservadas. Além disso, o protótipo tem custo bastante acessível, com sua parte metálica reutilizável, podendo ser replicável em outros cenários e em outros hospitais. Nossa equipe redigiu um artigo que fora aceito pela revista Auris Nasus Larynx, o qual está em fase de publicação, descrevendo com detalhes o protótipo, assim como todas as etapas a serem consideradas durante a realização de traqueostomias em pacientes com COVID-19.

 

A equipe já vem também testando o dispositivo para outros procedimentos cirúrgicos geradores de aerossol. Mas recentemente, realizamos uma glossectomia parcial e uma temporalectomia com o dispositivo, não havendo prejuízo técnico em virtude da sua utilização. Ainda assim, é preciso deixar claro que nesse período de pandemia, somente as cirurgias consideradas essenciais vêm sendo realizadas em nossa instituição, como urgências e cirurgias por cânceres tempo-sensíveis.

 

A procura por meios mais acessíveis de proteger o profissional de saúde é extremamente importante, principalmente em um momento como o que atualmente vivenciamos. O uso de dispositivos de proteção em barreira, como o desenvolvido pela nossa equipe no HUWC/UFC, deve ser considerado como método de proteção coletiva, sobretudo em instituições públicas em países em desenvolvimento como o nosso.

 

Prof. Dr. Wellington Alves Filho

Professor Adjunto – Faculdade de Medicina da UFC

Cirurgião de Cabeça e Pescoço – HUWC/UFC

wellington_a@hotmail.com