Alto risco de infecção por COVID-19 para cirurgiões de cabeça e pescoço

Marco Aurélio Kulcsar1, Fabio L. Montenegro1, Sergio S. Arap1, Marcos R. Tavares1, Luiz P. Kowalski1

1 Disciplina de Cirurgia de Cabeça e Pescoço da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

A epidemia de uma nova e grave doença respiratória causada por uma nova cepa de coronavírus iniciada em Wuhan (província de Hubei), na China, foi relatada pela primeira vez ao escritório local da Organização Mundial da Saúde (OMS) em 31 de dezembro de 2019.  O vírus e a doença foram rotulados como coronavírus 2 da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS‐CoV‐2). A doença causada por esse vírus foi posteriormente denominada COVID‐19 (1). Ela foi declarada uma emergência internacional em saúde pela OMS em 30 de Janeiro de 2020 (2). Em 26 de Fevereiro de 2020 o Ministério da Saúde confirmou o primeiro caso no Brasil (3). Em menos de 4 semanas foram registrados mais de 1.100 casos e 18 óbitos no país (4).Mais de 80% dos pacientes portadores de COVID-19 são assintomáticos ou oligosintomáticos. Aproximadamente 15% necessitam hospitalização e 3% a 5% evoluem para quadros clínicos graves necessitando suporte ventilatório em unidade de terapia intensiva. A taxa de mortalidade varia de 0,3 a 8%, com maior risco para idosos, hipertensos e diabéticos (3,5,6). Em 20 de março de 2020, temos uma acelerada pandemia que coloca em risco quase toda a população mundial, com aproximadamente  332.995 casos e até essa data (23/03/2020) 14.510  óbitos registrados , conforme a Organização Mundial da Saúde  7).

A primeira morte de um médico vítima do COVID-19 em Wuhan foi um otorrinolaringologista na data de 20 de Janeiro de 2020 (5). A morte pela doença do oftalmologista Li Wenliang que desde dezembro de 2019 tentou alertar as autoridades sobre uma doença grave parecida com SARS (outro grave coronavirus) e foi exonerado pelo governo chinês, ocorreu em 6 de fevereiro e revoltou o mundo (8,9). O primeiro caso registrado em Wuhan de contaminação de uma equipe cirúrgica é assustador. Todos os 14 participantes de uma hipofisectomia videoassistida endonasal foram contaminados (10). Dada a alta exposição a aerossóis durante procedimentos endoscópicos diagnósticos ou em cirurgias, muitos dos médicos falecidos na China são otorrrinoaringologistas ou oftalmologistas (11). De acordo com Patel et al. (12) muitos otorrinolaringologistas italianos e iranianos encontram-se infectados e em isolamento. Tem-se registrado fatalidades não somente entre médicos idosos, mas também jovens, incluindo médico residente iraniano de idade não revelada.

Uma carga viral expressiva está concentrada nas vias aéreas superiores, sendo uma provável causa da elevada taxa de infecção e muitas mortes entre otorrinolaringologistas, cirurgiões de cabeça e pescoço, oftalmologistas e endoscopistas chineses nesses três meses de epidemia (13-15). O mesmo elevado risco tem sido registrado na Europa. Devido a contaminação desse grupo de médicos, pode-se observar que além dos sintomas anteriormente descritos a anosmia é um achado frequente (16-18).

Assim, é mandatório um alerta a todos os profissionais que necessitarem fazer exames da região da cabeça e pescoço (incluindo exames oftalmológicos) de pacientes, com ou sem acesso as vias aerodigestivas superiores (videolaringoscopias, por exemplo), procedimentos de reabilitação ou mesmo a higienização dessa região (traqueostomias, curativos). Dado o alto risco profissional, o Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, recomenda que sejam suspensas as cirurgias e consultas eletivas, exceto as de natureza oncológica acrescidos das urgências e emergências (18).

Nos casos oncológicos, principalmente em pacientes portadores de carcinomas de vias aerodigestivas superiores, onde o tratamento de escolha é cirúrgico, torna-se importante a investigação prévia do contágio do COVID 19. A equipe da Universidade de Stanford sugere que um exame seja realizado dois dias antes da operação (12). Nem todas as cirurgias poderão ser reagendadas. Nesse período, atenção especial deve ser dada às traqueostomias e outras emergências como abscessos e traumas cervicofaciais. Devem ser tomadas medidas meticulosas de proteção de todos os membros da equipe assim como do centro cirúrgico, destatando-se a execução do procedimento em sala de pressão negativa e com filtro de HEPA no carro do respirador da anestesia e o uso de equipamentos de proteção individual (19).

No que tange a proteção individual a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço, especificou como deve ser a proteção para os procedimentos cirúrgico. Os “Equipamentos de proteção individual (EPI) para todos os profissionais envolvidos no procedimento são máscara tipo N95 ou PFF2, óculos ou visor facial de protecão, luvas descartáveis. avental descartável impermeável com gramatura mínima de 20“ (20). Deve-se se enfatizar que os procedimentos de paramentação e principalmente de desparamentação são padronizados para evitar o risco de infecção. Muitas infecções de profissionais de saúde ocorreram por erro na desparamentação, levando a mão com contaminação ao rosto, na retirada da máscara (21).

Durante essa pandemia causada por um vírus com uma intensa permeabilidade em vias aéreas faz-se necessário redobrar a atenção com a utilização de medidas protetoras visando reduzir os riscos para os especialistas em cirurgia de cabeça e pescoço.

Referências

  1. https://www.who.int/dg/speeches/detail/who‐director‐general‐s‐opening‐remarks‐at‐the‐mission‐ briefing‐on‐covid‐19‐‐‐12‐march‐
  2. https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019/events-as-they-happen.
  3. https://www.saude.gov.br/noticias/agencia-saude/46435-brasil-confirma-primeiro-caso-de-novo-coronavirus.
  4. https://www.dw.com/pt-br/coronav%C3%ADrus-número-de-casos-confirmados-no-brasil-passa-de-mil/a-52869452.
  5. Chan, YK, Wong WY, Lam W. Practical Aspects of Otolaryngologic Clinical Services During the 2019 Novel Coronavirus Epidemic. An Experience in Hong Kong. JAMA Otolaryngology–Head & Neck Surgery Published online March 20, 2020.
  6. Wu Z, McGoogan JM. Characteristics of and Important Lessons From the Coronavirus Disease 2019 (COVID-19) Outbreak in China: Summary of a Report of 72314 Cases From the Chinese Center for Disease Control and Prevention. 2020.
  7. https://www.who.int/docs/default-source/coronaviruse/situation-reports/20200318-sitrep-58-covid-19.pdf?sfvrsn=20876712_2
  8. https://www.bbc.com/news/world-asia-china-51409801
  9. https://nypost.com/2020/03/20/china-exonerates-doctor-who-warned-of-impending-coronavirus-outbreak/
  10. China Newsweek. View.inews.qq.com/a/20200125A07TT200?uid=&devid=BDFE70CD-5BF1-4702-91B7- 329F20A6E839&qimei=bdfe70cd-5bf1-4702-91b7-329f20a6e839.
  11. https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-03-17/europe-s-doctors-getting-sick-like-in-wuhan-chinese- doctors-say?fbclid=IwAR2ds9OWRxQuMHAuy5Gb7ltqUGMZNSojVNtFmq3zzcSLb_bO9aGYr7URxaI
  12. Patel ZM, Hwang PH, Nayak JV, Fernandez-Miranda J, Dodd R, Sajjadi H, Jackler, JK. Stanford University School of Medicine. Departments of Otolaryngology-H&N Surgery and Neurosurgery.
  13. https://www.bloomberg.com/news/articles/2020-03-17/europe-s-doctors-getting-sick-like-in-wuhan-chinese-doctors-say?fbclid=IwAR2ds9OWRxQuMHAuy5Gb7ltqUGMZNSojVNtFmq3zzcSLb_bO9aGYr7URxaI.
  14. Ran L, Chen X, Wang Y, Wu W, Zhang L, Tan X. Risk Factors of Healthcare Workers with Corona Virus Disease 2019: A Retrospective Cohort Study in a Designated Hospital of Wuhan in China. Clin Infect Dis.
  15. Lai THT, Tang EWH, Chau SKY, Fung KSC, Li KKW. Stepping up infection control measures in ophthalmology during the novel coronavirus outbreak: an experience from Hong Kong. Graefes Arch Clin Exp Ophthalmol.
  16. Zou L, Ruan F, Huang M, et al. SARS-CoV-2 Viral Load in Upper Respiratory Specimens of Infected Patients. N Engl J Med. 2020 Mar 19;382(12):1177-1179. doi: 10.1056/NEJMc2001737. Epub 2020 Feb 19.
  17. https://en.radiofarda.com/a/loss-of-sense-of-smell-among-iranians-coinciding-with-coronavirus-epidemic/30478044.html
  18. https:/www.cremesp.org.br/recomendação/2020-03-19.
  19. Ti, L. K., Ang, L. S., Foong, T. W., & Ng, B. S. W. (2020). What we do when a COVID-19 patient needs an operation: operating room preparation and guidance. Canadian Journal of Anesthesia/Journal Canadien D’anesthésie.doi:10.1007/s12630-020-01617-4
  20. https:/www.sbccp.org.br/noticias/ recomendação da sbccp para traqueostomias e manejo da via aérea em casos suspeitos ou confirmados de covid-19./ 2020-03-18.
  21. http://www.cremesp.org.br/?siteAcao=NoticiasC&id=5581).